e de olhar eu via. eu vi quando soube que eras assim, desenrolado coas letras, que encaracolava ali, no topo da sua cabeça, as ideias livres, as criações em poucas palavras, soltas do lado de dentro.
e foi quando eu descobri que era menino, ainda, e que era velho, e que era mulher, e que ao homem não sobravam roupas, não lhe sobrava corpo, e lhe sobrava sentir, e lhe faltava o álcool - era sedento.
como era sedento e frágil, e como era obscuro fitar-lhe a dor destilada nos movimentos lentos, na curva que fazia suas costas ao debruçar-se sobre fragmentos de papeis empunhando uma caneta; no sorriso claro que se abria e rompia em profundas e secretas perspectivas.
cabia ali, naquelas frases de otimismo, uma dor diluída, uma ilha de vida que se acorrentava às marés, ao fluxo do vento. cabe ali, dentro dos olhos escuros, um ponto de fuga que se ia evaporando, que lhe levara o alcance dos pés, que perfurara seus olhos em túneis de ver: via além - e era uma via de mão única (ele sabia).
via e enxergava a necessidade rasa dos que vagam pelos caminhos incertos, via as sereias que puxavam-nos, mortais que somos, ao mundo submarino da ilusão, que nos derrubavam da corda bamba que divide os mundos. ele já caíra. ele sabe,vindo do fim das vidas que ressuscitara, que sorrir bastaria.
já levava em si as rugas de um velho marinheiro, na língua histórias fantásticas, ele sabe, ele sabe por dentro onde vai dar, em que findará o mundo, e se incumbe de plantar girassóis, girassóis que os guiem aos sonhos, assim como o que ele plantara em si: seu salvador, e o rega a doses de embriaguez, para encurtar o tempo, a espera.
espera o momento em que um barco com grama no convés e acompanhado da solidão livre, da que não acorrenta os pés, da que liberta, da que dá asas ao leme, pulmão ao motor e coração a se diluir em salmouras.
espera a redenção...
- é uma coisa que segue o sol.
o sol, resplandecente e dourado.
é a vida, a fonte da vida. luz
é natural que sejamos fototropistas, é de natureza que busquemos nos cegar apontando nossas pupilas queimáveis ao ângulo do sol.
- são cegos. Girassóis só poderiam ser cegos.
deviam entender, cegos que são, o que Ele gostaria de dizer, a que será que se limita?
- Porque quando o olho, o sol, Ele me cega. poderia eu ser girassol?
a que será que se finda, ver ou viver, vir ver o sol que se levanta e cai.
- a lua!
sim, assim como a lua, crescente, cheia, minguante, nova...
as fases do sol: nascente, repleto, poente e morto.
Não há como fugir do fim, tampouco do começo.
O destino, além desse, além da flor que murcha adormecida quando a noite abocanha o dia, além da diluição de todas as coisas na escuridão, além da lua nova, só quem acompanha o sol, quem acompanha a lua, quem dos olhos se desfez para observar poderia dizer.
- sentei para conversar com um Girassol. poderia ele me dizer, na confidência de um surdo, o que sua cegueira enxerga. poderia eu lhe confessar o que minha mudez esconde.
Leminski diria que cresce dentro do ponto, meu centro, o que eu calo.
por dentro, calejado, sou um infinito de coisas crescidas.
me habita o Mundo, carta rara, que habita as páginas dos meus livros, míope e surda.
me habita um bambear entre terra e mar: entre calar ou sussurrar.
ao olhar, vi o fractal no miolo.
miolo da flor amarela, que anda a escutar Apolo; apelo para ver a verdade secreta da morte que cabe, desperta, no fim do horizonte do dia: noite de segredos, em mim.
O sol é fractal em seu miolo.
- como pode saber?
vendo! vendo com olhos de girassol e emudecendo, escutando o barulho do silêncio, ensurdecendo.